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Por que tanta gente perdeu o interesse em ler livros


Um hábito que encolhe

Os números mais recentes do Brasil incomodam. Na sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o percentual de leitores ficou em 47% e o de não leitores em 53%, o que representa uma perda de 6,7 milhões de leitores desde 2019. Para dar perspectiva, em 2007, primeiro ano da pesquisa sob comando do Instituto Pró-Livro, eram 55% de leitores contra 45% de não leitores. Em 2011 os dois grupos empataram em 50%, e agora, pela primeira vez desde 2007, o país tem mais não leitores do que leitores. Além disso, a média de livros lidos por ano é a menor da história, de apenas 3,96 por pessoa. Retratos da leitura no Brasil +2

Vale lembrar o critério da pesquisa: é considerado leitor quem leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos três meses anteriores. Ou seja, o padrão para entrar na estatística de leitor é baixo, e mesmo assim a maioria dos brasileiros já ficou de fora dele. cenpec

O fenômeno também não é exclusivamente brasileiro. Um estudo da Universidade da Flórida e do University College London, publicado na revista iScience, analisou dados de mais de 236 mil americanos entre 2003 e 2023 e concluiu que a leitura diária por prazer nos Estados Unidos caiu mais de 40% em vinte anos. Uma das pesquisadoras descreveu o movimento como um declínio contínuo, de cerca de 3% ao ano. Quando países diferentes, com sistemas educacionais e culturas diferentes, mostram a mesma curva, é sinal de que as causas são profundas e não só locais. eurekalerteurekalert

"Não tenho tempo": a resposta mais comum

Perguntados sobre o motivo, os brasileiros dão uma resposta parecida. Entre os leitores, a falta de tempo, com 46%, é o principal motivo de não lerem mais. Entre os não leitores, também é o principal, com 33%, seguida de não gostar de ler, com 32%. jornalnota

A frase "não tenho tempo" merece atenção. Ninguém tem menos horas no dia do que tinha há vinte anos. O que mudou foi a competição por essas horas. Em 2019, a coordenadora da pesquisa observou que as pessoas, principalmente da classe superior, estão usando o tempo livre nas redes sociais, e não para leitura ou prazer, e que o tempo que sobra ao longo do ano está sendo consumido por elas. Uma leitura razoável é que "falta de tempo" muitas vezes significa "falta de prioridade", porque o tempo existe, mas é ocupado por algo que exige menos esforço e entrega recompensa mais rápida. sinproesemma

A paciência que diminuiu

Um dado da edição de 2019 ajuda a entender isso. O percentual dos que dizem "não ter paciência" para ler mais que dobrou, passando de 11% para 26%. Não se trata mais apenas de ter ou não tempo, mas de suportar o ritmo lento de um livro. itausocial

Um livro pede algo que o resto da vida digital raramente pede: atenção sustentada, sem estímulos novos a cada poucos segundos. Quem passa horas alternando entre vídeos curtos, mensagens e notificações treina o cérebro para saltar de um conteúdo a outro. Voltar a uma página que exige concentração contínua passa a parecer trabalho, e não descanso. Essa é uma interpretação, não uma conclusão direta da pesquisa, mas combina com o que os dados sugerem sobre paciência e uso do tempo livre.

A escola que às vezes afasta em vez de aproximar

Outro fator recorrente é o papel da escola. A pesquisa de 2024 apontou que, por influência da escola, os brasileiros leem menos de um livro por ano, e que quase um terço dos não leitores diz não gostar de ler. Uma professora da Faculdade de Educação da USP ouvida sobre o assunto atribuiu parte do desinteresse dos jovens à pouca estimulação da leitura pela atividade escolar, além do uso frequente de redes sociais. negociosscitausocial

Isso faz sentido quando se pensa no modo como muitos estudantes conhecem a literatura: como obrigação, com prova e resumo. Um livro imposto, lido às pressas e cobrado em avaliação tende a ser lembrado como tarefa. Quem sai da escola associando leitura a dever dificilmente volta a ela por escolha. Uma criança que lê por prazer aos dez anos pode virar um adulto que nunca mais abre um livro se o caminho até lá for cheio de obrigação e pouco de descoberta.

O exemplo que falta em casa

A leitura também se aprende pelo exemplo. Segundo a pesquisa de 2024, entre crianças de 5 a 13 anos, 64% disseram que nenhum pai, mãe ou parente lê para elas com frequência. Entre as crianças leitoras, esse número é de 56%, entre as não leitoras, de 72%. jornalnota

Ou seja, mesmo entre as crianças que leem, mais da metade não tem alguém em casa que leia para elas. E a proporção é ainda maior entre as que não leem. Criança que nunca vê adultos com um livro na mão, nunca ouve uma história antes de dormir e nunca é levada a uma biblioteca tende a considerar a leitura algo distante, coisa de escola e não de vida.

Do auge na infância ao abandono na vida adulta

Os dados mostram que a relação com o livro tem um pico e depois uma longa queda. Segundo a pesquisa, entre os pré-adolescentes de 11 a 13 anos, 81% leram um livro nos últimos três meses. Em 2019, a única faixa etária que apresentou aumento de leitores foi a de 5 a 10 anos, de 67% para 71%. Já quanto mais elevada a faixa etária, menos leitura diária, hábito que despenca a partir da idade adulta. Um levantamento apontou que apenas 4% dos participantes entre 50 e 69 anos relataram contato diário com a literatura, e 2% entre os maiores de 70. “Retratos da Leitura no Brasil”: brasileiro lê cada vez menos +3

O padrão sugere que o problema não é a criança não gostar de ler, mas o hábito não sobreviver à adolescência. Na transição para a vida adulta, o livro passa a competir com trabalho, vestibular, relacionamentos, redes sociais e cansaço. Quem não consolidou a leitura como prazer pessoal a abandona sem perceber.

Nem a escolaridade e a renda garantem

Um dado surpreendeu os próprios pesquisadores na edição de 2019: a queda de leitores nas classes A e B e entre quem tem ensino superior, grupos que historicamente sempre tiveram percentual maior de leitores. Ainda assim, quando se olha em termos de porcentagem, é maior o número de leitores entre quem tem ensino superior (68%) e nas classes A e B (67% e 63%). sinproesemma

Isso desfaz a ideia de que o abandono do livro é um problema só de quem estudou pouco ou tem menos dinheiro. Pessoas com formação e acesso também estão lendo menos. Ter acesso a livros e saber ler não basta se a atenção e o tempo livre estão sendo direcionados a outro lugar.

Existe vontade, mas falta o hábito

Talvez o dado mais revelador seja este: 75% dos brasileiros gostariam de ler mais. Em 2019, esse número era ainda mais alto entre os leitores, 82% deles disseram querer ler mais. O interesse, portanto, não desapareceu. O que se perdeu foi o caminho entre o desejo e a prática. jornalnotasinproesemma

Isso importa, porque muda o diagnóstico. Não se trata de uma sociedade que rejeita livros, mas de uma sociedade que gostaria de lê-los e não consegue encaixá-los na rotina. É a mesma diferença entre querer se exercitar e realmente ir à academia: a intenção existe, mas o hábito é frágil e perde para o que é mais fácil.

O que motiva quem lê

Entre quem lê, as razões são variadas. A pesquisa aponta que 24% dos brasileiros procuram a leitura porque gostam, 15% por distração e 15% por atualização cultural ou conhecimento geral. Na escolha do que ler, pesam o tema ou assunto (30%), a capa (12%), as dicas de outras pessoas (11%), o título (11%) e o autor (10%). Entre os gêneros mais lidos aparecem a Bíblia, contos, romance, livros religiosos e poesia. jornalnota

Repare no peso da indicação de outras pessoas e da capa: a leitura ainda depende muito de descoberta social e de estímulo visual. Isso indica que quem não convive com leitores tem menos chance de esbarrar em um livro que o fisgue.

Mudança populacional também pesa

Nem tudo é desinteresse. Em uma edição anterior da pesquisa, os autores lembraram que, com o envelhecimento do país, havia 7,1 milhões de brasileiros a menos na faixa de 5 a 17 anos, o que significa menos estudantes e, portanto, menos leitores. Como a escola é uma das grandes formadoras de leitores, uma população com menos jovens tende a registrar menos leitura, independentemente de outras causas. ufg

O que se perde quando o livro sai de cena

A coordenadora da pesquisa fez uma observação interessante: os leitores realizam mais atividades culturais no tempo livre, cerca de 7 contra 5 dos não leitores. Para ela, isso mostra que a leitura também é uma porta de acesso a outras formas de cultura. sinproesemma

Se isso for verdade, a queda no número de leitores não significa apenas menos livros lidos. Significa também menos curiosidade cultural, menos repertório, menos contato com ideias longas e complexas. O livro treina algo que poucos formatos treinam: acompanhar um raciocínio do início ao fim, tolerar a dúvida e sustentar a atenção. Quando esse exercício desaparece, perde-se mais do que o costume de ler.

Uma ressalva importante

Estes estudos mostram quanto as pessoas leem e o que elas dizem sobre os motivos. Não provam relação de causa e efeito. "Falta de tempo" pode ser uma resposta cômoda para algo mais complexo, como cansaço, ansiedade ou preferência por conteúdos rápidos. A ligação entre redes sociais e queda da leitura é defendida por especialistas ouvidos nas pesquisas e faz sentido, mas continua sendo uma interpretação. E o próprio critério de leitor, que considera apenas livros, deixa de fora quem lê muito em outros formatos, como notícias, artigos e textos


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